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09 de Março de 2018

Homilia - IV Domingo da Quaresma

Leituras: IICr 36, 14-16.19-23/ Sl 136, 1-2.3.4-5.6/ Ef 2, 4-10

Evangelho: Jo 3, 14-21

 

“Deus é rico em misericórdia” (Ef 2, 4)

 

          “Deus é rico em misericórdia” (Ef 2, 4). Eis uma verdade fundamental da fé que muda radicalmente a nossa vida de pecador, tantas vezes marcada pela infidelidade. Por maior que sejam os nossos pecados, Deus não está alheio à nossa miséria, pois tem um coração (cor), atento à nossa miséria (miseris), Ele é misericórdia. Assim, existem duas descobertas que redimensionam profundamente a nossa vida: reconhecer que somos pecadores e reconhecer que Deus é misericórdia, que Ele é amor.

          Estas duas descobertas são necessárias simultaneamente em nossa vida. Pois a descoberta de apenas uma destas realidades pode agravar ainda mais a nossa condição de pecadores. Porém, reconhecer-se pecador e ao mesmo tempo conhecer Deus como misericórdia, abre para nós um verdadeiro caminho de conversão. 

          Se apenas reconhecemo-nos pecadores, caímos esmagados sob o peso de nossas infidelidades. Uma das consequências de se reconhecer apenas pecador, sem conhecer a “Deus rico em misericórdia”, é o desespero. Talvez essa seja uma das graves doenças espirituais do nosso tempo. Pecado sempre existiu. Mas o distanciamento de Deus se faz sentir de modo muito agressivo em nossos dias. De modo que passamos a pensar que a misericórdia não existe, que só existe o pecador e o pecado que o escraviza.

          Esta é uma circunstância perigosa. Pois estamos diante de uma abundância do pecado, exposto cinicamente como se fosse um espetáculo, nos meios de comunicação social, nas nossas conversas, no nosso modo de se divertir, nas músicas que ouvimos, em nosso modo de assumir a vida. E por outro lado Deus que é misericórdia, parece ter sido completamente excluído de nossa vida. É lembrado, às vezes, apenas quando a dor, o sofrimento ou desespero, não pode mais ser anestesiado, pela falsa oferta de infinito prazer que o estilo de vida superficial impõe hoje sobre às pessoas. 

          O resultado final deste processo, de se reconhecer pecador, e não conhecer Deus que é misericórdia é que a vida se torna insuportável, como um farto do qual precisamos nos livrar – somos assim levados a experiência de Judas --- que no seu desespero só viu o seu pecado, não foi capaz de ver a misericórdia de Deus. Pois sem misericórdia o mundo e a vida não tem sentido. 

          Neste estágio percebemos que “as trinta moedas de prata” (cf. Mt 26, 14) que o mundo nos ofereceu, não vale o ouro do amor e da misericórdia de Deus, que abandonamos e excluímos do espaço da nossa vida. A prata do mundo sem Deus, apaga o brilho da nossa vida e a transforma nas cinzas da morte. Portanto, olhos abertos, para reconhecer-se pecador, mas também para abrir-se à misericórdia de Deus. 

          Reconhecer-se pecador e conhecer Deus rico em misericórdia, nos leva a encontrar o real sentido da nossa existência. Torno-me capaz de reconhecer os meus pecados, minhas infidelidades, mas sei que tenho diante de mim um Deus que é misericórdia que “tanto amou o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16)

          Em Jesus Cristo, Deus nos deu um coração capaz de curar as misérias do coração humano. Um coração aberto, do qual jorra sangue e água. Sinais dos sacramentos do Batismo e da Eucaristia, os quais nos imergem no manancial da misericórdia de Deus. Pelo batismo de escravos que éramos, tornamo-nos filhos, na Eucaristia o Senhor se entrega a nós, renovando e atualizando o sacrifício da nossa salvação. Mesmo depois de termo-nos tornado filhos, fazemos ainda a experiência amarga da infidelidade e do pecado, mas mesmo aí Deus que é rico em misericórdia não nos abandona, e nos dá a possibilidade do perdão no sacramento da penitência. A sua misericórdia ainda nos envolve nos gestos de acolhida, de hospitalidade, de partilha que sempre nos surpreende nos momentos em que somos atingidos por nossas fraquezas. 

          É esta misericórdia que a Igreja, e todos o discípulos de Jesus Cristo são chamados a ser portadores para si mesmos e para toda humanidade. Misericórdia que deve ser celebrada de modo sacramental, e vivida na realidade concreta da vida, na qual o pequeno e o fraco precisam de uma mão estendida. Onde os desesperados precisam ser consolados, os que tem fome precisam ser saciados, onde desprezados precisam ser acolhidos. Os odiados precisam ser perdoados. 

          Por fim, que este ano jubilar jubilar extraordinário da misericórdia, agora convocado pelo papa Francisco, nos ajude não só a nos reconhecer pecadores e a encontrar o Deus rico em misericórdia, mas também a nos tornar portadores desta misericórdia para os outros, na medida em que cada um precisa. A redescobrir a misericórdia não apenas como devoção, mas como princípio norteador de nossas ações, de nosso pesar, do nosso falar, do nosso viver. Uma misericórdia que nos arranque da indiferença e da frieza diante de todos aqueles que precisam de uma mão estendida. Pois se quisermos saber a medida da misericórdia de Deus por nós basta olhar o tamanho das nossas misérias. Quanto maior o nosso pecado, maior a misericórdia de Deus derramada sobre nós. 

 

Pe. Hélio Cordeiro

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